1. Literatura e Geograficidade

Na literatura, a geograficidade, termo cunhado por Eric Dardel (2011), encontra um meio profícuo para analisar a cumplicidade que as personagens ou, no caso da poesia, o eu-lírico estabelecem com o espaço. Amor à Terra, afetos e muitos sentimentos vêm à tona, quando o Homem não vê a Terra apenas como algo utilitário, mas a sente como parte essencial de sua vida. É na paisagem, união de todos os elementos relativos à Terra e ao Homem, que a geograficidade de fato surge. Assim, as discussões deste eixo articulam-se em torno das diversas maneiras pelas quais o Homem relaciona-se com o espaço (material, telúrico, aquático, aéreo ou construído), buscando sempre a cumplicidade com a Terra, na qual constrói e situa toda sua existência.

2. Literatura e gêneros de escrita de si

Espaço de ressignificação da memória por excelência, o conjunto de gêneros englobados na expressão foucaultiana “escrita de si” – diários, autobiografia, autoficção, correspondências, dentre outros – se insere na discussão do mundo vivido à margem de duas formas principais: uma metalinguística e outra pela natureza do seu conteúdo. A primeira se dá à medida que se explora o caráter híbrido e fronteiriço desses gêneros, que vem sendo problematizado de forma mais sistemática a partir do século XX na esteira de Philippe Lejeune, Maurice Blanchot e Serge Doubrovsky. A segunda, inter-relacionada à primeira, diz respeito ao lugar privilegiado que as escritas confessionais oferecem à (re)construção de imagens do passado e de si, que se manifestam nas mais diversas narrativas, na expressão da geograficidade e no registro dos meandros mais íntimos dos processos de deslocamento e desterritorialização, conforme defende, por exemplo, Diana Kingler sobre a narrativa latino-americana contemporânea. Nesse sentido, este eixo temático abrangerá trabalhos sobre as repercussões éticas e estéticas das escritas de si, consideradas de maneira ampla, e abordadas, dentre outras possibilidades, como: forma de expressão literária; em suas consequências para noções centrais da crítica e da teoria literária (como a discussão do “retorno do autor” e “gênero híbrido”); documento de estudo historiográfico, antropológico, sociológico, filosófico e interdisciplinar. São esperadas, portanto, reflexões sobre as fronteiras entre os gêneros de escrita de si e o que tradicionalmente se considera como gêneros literários, em diálogo com a condição de sujeito exilado, migrante ou marginalizado que esses textos possam expressar.

3. Literatura e Interartes

O presente eixo temático tem por objetivo a discussão de questões sobre a Literatura na sua relação com outras artes, a saber: a pintura, a fotografia, a música, o cinema, dentre outras expressões. Enquanto representação e experiência, daremos enfoque ao lugar dos excluídos social, histórico, cultural e geograficamente, pois a Literatura se constitui como uma forma de compreender o mundo, como afirma Massaud Moisés (2012, p. 28) e, “se a vida de cada um corresponde a um esforço persistente de conhecimento, superação e libertação, à Literatura cabe um lugar de relevo, como ficção expressa por vocábulos polivalentes”, nesse sentido a arte literária revela mundos possíveis em várias materialidades. No tocante aos estudos interartes, Solange de Oliveira (2012, p. 21) destaca que “A arte contemporânea habita assim um universo de profundo pluralismo e total tolerância”, possibilitando, portanto, diálogos discursivos e intersemióticos no campo das artes. Assim, esse eixo abraçará trabalhos que relacionem a Literatura com outras artes com vistas à compreensão e expressão das denúncias humanas no universo do imaginário artístico.

4. Literatura e Processos Migratórios

Talvez possamos agora sugerir que histórias transnacionais de migrantes, colonizados ou refugiados políticos - essas condições de fronteira e divisas - possam ser o terreno da literatura mundial [...]" (BHABHA, 1998, p. 33). Seguindo essa linha de raciocínio, o eixo pretende englobar trabalhos que versem sobre as possíveis intersecções entre Literatura e os diversos processos migratórios, a fim de entender como esses deslocamentos e suas consequências aparecem na Literatura e a mútua influência entre os campos. Como processos migratórios, são compreendidos: exílios, êxodos, diásporas, refúgios, ou seja, deslocamentos coletivos ou individuais que impliquem uma mudança de território e as seguintes etapas: o abandono do lugar de origem, a subsequente viagem e o estabelecimento em um novo lugar. Portanto, além de abordar o deslocamento migratório em si, como o fazem Celso A. Salim (1992) e André B. Golgher (2004), por exemplo, o estudo da migração também compreende causas e consequências, como o hibridismo e o entre-lugar de Bhabha (1998), comuns efeitos da troca cultural entre povos e culturas através dos migrantes, as tensões e relações de poder entre as sociedades, como observa Edward Said (2003), e suas implicações territoriais e subjetivas, como analisam Eduardo Marandola Jr. e Priscila Dal Gallo (2010), entre tantos outros autores.

5. Literatura e Turismo Cultural

A Literatura suscita os mais variados diálogos, seja com a geografia, a cultura e o turismo, em especial o turismo cultural. Compreende-se por Turismo cultural as atividades turísticas relacionadas à vivencia do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura (BRASIL, 2006, p.10). Desse modo, procura-se estreitar as relações entre literatura e turismo, visto que ambas contribuem tanto para o aprendizado e lazer, quanto para o conhecimento propriamente dito. Os contributos teóricos dessas relações implicam não somente uma literatura de viagem, mas, de forma mais profunda, agregam valores e sentimentos aos lugares de memória e expressividade cultural. “A experiência é constituída de sentimento e pensamento. O sentimento humano não é uma sucessão de sensações distintas; mais precisamente, a memória e a intuição são capazes de produzir impactos sensoriais no cambiante fluxo da experiência, de modo que poderíamos falar de uma vida de sentimento como falamos de uma vida de pensamento”. (TUAN, 2013, p.19.) As relações, portanto, que se estabelecem com a literatura e o turismo envolvem sentimentos indissociáveis da cultura e suas variadas concepções. Espera-se que as relações provenientes entre Literatura e turismo ampliem as discussões e possibilitem a criação de trabalhos relacionados ao eixo proposto.

6. Literatura dos Socialmente Deslocados

Este eixo tem como foco os estudos da representação e da autorrepresentação de indivíduos deslocados socialmente, que têm suas identidades marcadas por mecanismos de exclusão social, ou por seu gênero/sexualidade, classe, etnia, ou relativo ao lugar de pertencimento. Nesse sentido, interessam-nos estudos que problematizam narrativas, realizadas pelos próprios excluídos, que assumem um sério esforço de interpretação desses mecanismos. Dentre as quais, a obra Quarto de despejo (1960), de Carolina de Jesus — mulher negra, favelada, catadora de papelão e autora —, apresenta-se como representante inconteste. Serão bem-vindas também propostas que discutam as denominações: escrita de periferia, literatura marginal e literatura dos excluídos, assumidas com uma conotação positiva, enfatizando não apenas a carência, mas a ideia de pertencimento. Será, assim, discutida a ideia de que "ser da periferia”, “ser marginal” ou "ser excluído" "significa participar de um certo ethos que inclui tanto uma capacidade para enfrentar as duras condições de vida, quanto pertencer a redes de sociabilidade, a compartilhar certos gostos e valores” (MAGNANI, 2006, p. 40). Além disso, buscamos contemplar pesquisas que ampliem as discussões em torno da exigência do “morar dentro do tema”, contestada por escritores como FERRÉZ (2012), que defende: “Não quero ser cronista do inferno a vida toda. Já moro no tema. Ter de remoer isso é doloroso”. Isso revela um paradoxo, uma armadilha e até “uma prisão” para a literatura dos socialmente deslocados, pois, ao atrelar a situação socioeconômica e o local de origem do autor a uma determinação de um tipo de conteúdo ou linguagem, supostamente necessário a uma obra para caracterizá-la como pertencente a um gênero literário específico, torna-a limitada e, ainda, excludente.